fan-news

Depoimento emocionado de fã que esperou décadas para assistir Depeche Mode ao vivo


Crédito - Manuela Scarpa - Brazil News

Três décadas de espera se condensaram numa chuva branda que caía complacentemente às vésperas do show. Impossível não chover naquela noite, naquele lugar, em São Paulo.

Era mais para lavar a alma do que para nos molhar. Mesmo porque, ainda que não houvesse capinhas, estaríamos lá de qualquer jeito. Com ou sem roupa molhada. Com ou sem pés. Até mesmo nus. A moça serena da tatuagem fina e da camiseta preta encharcada sobre a feliz pele fria. O homem da barba grossa que pingava sobre aquela blusa com letras vermelhas, talvez escorrendo a mesma idade, talvez esperando pelo mesmo tempo. O cara que só gritava caralho e puta que pariu atrás de mim a cada nota inicial. Entendo perfeitamente. A mulher que pulava como criança à minha frente. Todos debaixo d’água, em pé, voltados para a mesma direção.Como em qualquer show, desconhecidos que se amam por instantes derivados da devoção em comum. Anos, décadas, de espera convergiam nossos olhares para a mesma incrédula expectativa.

Crédito - Manuela Scarpa - Brazil News
Crédito – Manuela Scarpa – Brazil News

Assistir no Brasil a um show do Depeche Mode foi privilégio de poucos, tenho certeza. Poucos os que viajaram de todos os cantos do país para lotar o estádio que vendeu todos os ingressos. Poucos os que puderam testemunhar uma chuva tão esperada. Menos ainda os que puderam recebê-la bem em frente ao palco. Era mais para disfarçar as lágrimas do que para nos molhar.

Impecáveis na pontualidade e no respeito ao público que passara por tanta secura, a troca de palco começou exatamente meia hora antes. O vídeo de segurança e da parceria com a Hublot não falou só do espírito global, mas anunciou um countdown que disparou corações.

O evento foi perfeito. Mas o que mais se poderia esperar de Depeche Mode?! Todas as músicas, cantadas. Todos os hits, dançados. Os refrões, gritados. Os clipes, admirados. Eu vi um gigante desmaiar atrás de mim. Chorei com música que ainda não sei cantar – porque sim, é bem isso o que eles fazem comigo desde sempre, especialmente o Martin Gore, cuja superfície da alma já me dilacera. Beijei minha namorada no refrão mais love in itself porque words are very unnecessary e porque ali qualquer agradecimento seria aquém. All I ever wanted was there in my arms. Levei as mãos ao peito algumas vezes, it’s called a heart, quando me dava conta do que estava acontecendo. Essa mania de perceber o presente ainda tira meu coração do seu lugar (but I just can’t get enough, como a multidão que, ao final, fazia o pedido mais alto, mais sincero e mais pertinente que já ouvi).

Crédito - Manuela Scarpa - Brazil News
Crédito – Manuela Scarpa – Brazil News

Eles tocaram e cantaram e cantaram e tocaram muito. Com a perfeição e a competência que todos esperavam. Mas o que mais fica, além do esperado e além do invisível, é o carisma e a gentileza demonstrada, dentre outros pequenos gestos, no microfone para o público diversas vezes, na chamada para o poder do conjunto, o espírito gentil de que tanto falam.

O show foi perfeito porque houve – e há – amor, há paixão, há intensidade há décadas. Os cinquentões não são só bons; são coesos e coerentes. Não é à toa que lá se vão anos e anos de união. Não é à toa que gente do mundo inteiro lota os seus shows em todos os lugares. E não é à toa que três décadas são só três dias para quase quarentonas como eu, que tiveram o privilégio de crescer ouvindo os caras. Stories of old.

Eu tinha oito anos quando os conheci. Music for the masses, álbum de 87. Para mim, foi music forever. Acompanhei a carreira, gravei fitas, comprei CDs, assisti a DVDs. Dancei com amigos, dediquei canções, chorei sozinha. Com inveja triste, sabia das turnês mundo afora, lugares para os quais nunca pude ir – mas eu sabia que um dia, cedo ou tarde, este show iria se realizar aqui. Just a question of time. Em sonhos, por duas vezes, pude encontrá-los (dream on…). Aos 38 anos, finalmente, eu os vi. Aquela pequena distância nunca existiu. Se pudesse, tocava-os e, sem palavras, só conseguiria abraçá-los em agradecimento por tudo. Sacred. Infelizmente, não pude. Mas a chuva cumpriu bem seu papel.

Por Larissa Ventura
Crédito foto em destaque: Manuela Scarpa – Brazil News


Deixe seu comentário


Envie sua matéria


Anexar imagem de destaque